segunda-feira, 21 de abril de 2008

. não é bem assim... .

viajar é bom, muito bom. vivenciar culturas diferentes é fantástico. manter a mente e o coração abertos para o novo é, além de recomendável, salutar e de quebra ainda pode render gratas surpresas.

minha condição de viajante é muito sui generis porque não sou a típica turista - aquela pessoa que junta uma grana, *escolhe* um lugar pra visitar durante um período de tempo que varia entre 15 dias e um mês, visita lugares típicos, tira centenas de fotos, se diverte e volta pra casa, nem sou a imigrante - aquela que se muda de mala e cuia pra um lugar e tem que descobrir como funcionam o sistema de saúde, o transporte público, o mercado de trabalho, o aluguel de apartamentos, etc. viajo a trabalho, coordenando projetos que duram, geralmente, de uns poucos meses a um ano, fico hospedada em hotéis e tenho sempre uma pessoa (que costumo chamar anjo-da-guarda) pra ajudar com tradução, saques de dinheiro em bancos, médicos, etc.
se por um lado experimento mais da cultura local do que um turista, por outro lado passo batida em relação a essas tarefas chatas e inevitáveis do cotidiano.

isto posto, é importante lembrar que a maneira que nós "lemos" um lugar novo é influenciado basicamente por dois fatores: a motivação e o tempo.

tomemos, como exemplo, a disney. para muitas pessoas - inclusive adultos - encontrar o mickey e a cinderela, assistir a queima de fogos no final do espetáculo, brincar nos brinquedos do parque é o que há. já pra outras pessoas a disney não significa absolutamente nada, elas estão mais a fim de curtir as maravilhas naturais desse planeta e sonham é em ir pra austrália e mergulhar entre os recifes de corais. trocar as passagens desses indivíduos é confusão na certa, concorda? pois bem, essa é a parte da motivação.

o fator tempo também é importante, já que passar uma semana sem internet ou celular, numa pousadinha escondida em campos do jordão, pode ser maravilhoso pra recarregar as energias, mas como seria passar 6 meses lá, sem poder sair pra lugar nenhum? mesma coisa com las vegas ou qualquer outro lugar, pra ser bem franca. chega uma hora que aquilo não é mais tão bacana e começa a dar nos nervos.

voltando ao meu caso, a minha motivação é o trabalho (não escolho pra onde vou, me mandam ir pra lugar X ou Y) e o tempo geralmente é maior do que eu gostaria. é muito fácil ser tolerante com uma cultura diametralmente oposta à minha se estou ali por uma semana. tudo adquire um clima de oba-oba, olhe que pitoresco!, nossa como é lindo!, puxa, que engraçado/estranho/diferente! ouquei, agora dá licença que vou fazer as malas, voltar pra casa, onde tudo é familiar e seguro e tirar meu óculos de lentes cor-de-rosa. ficar por um longo período de tempo é diferente, muito diferente. Deus é testemunha do meu esforço: se o assunto não envolve sujeira, lixo e rato, não reclamo, não critico, não sugiro aaah, mas voces deveriam fazer assim ou assado. calo a minha boca, sorrio, faço o possível para não ferir suscetibilidades e sigo em frente.

mas sou normal, me espanto com coisas diferentes das quais estou acostumada. ah, anita, mas voce está enxergando tudo com os seus olhos de ocidental. oi? alô? e era pra eu enxergar com os olhos de que mesmo? by the way, eu não sou um livro em branco e tenho minha própria cultura, ora mais! é im-pos-sí-vel não reagir - positiva ou negativamente - a usos e costumes que não fazem parte do meu dia-a-dia.

outro ponto: muita gente fala em "respeitar" os costumes alheios e eu digo que às vezes isso é possível, às vezes não. exemplo? a demonstração pública de carinho entre casais na índia não é permitida - não respeito, acho uma besteira sem tamanho, apenas tolero. tirar catota do nariz em público na china - não respeito, acho de mau-gosto, anti-higiênico, mas tolero. assassinar crianças do sexo feminino (na índia e na china), não respeito, não tolero, não aceito, não entendo, não compreendo, não quero compreender e tenho raiva de quem compreende. não não não não NÃO. a atenção e reverência pelos mais velhos (também na índia e na china) - respeito, acho lindo e lamento que grande parte do mundo ocidental tenha perdido essa característica.

tudo isso, mais o stress monumental do trabalho, cansa muito. não ter a certeza da transitoriedade - no caso do turista, nem da permanência - no caso do imigrante que se vê contra a parede e é quase forçado a assimilar parte da cultura alheia o mais rápido possível (pra seu próprio bem e sanidade mental) - é extenuante.

e voce? o que tem que "respeitar" e "entender" todos os dias?

1 comments:

Simone Takayama disse...

Anita, 'cê quer MESMO que eu conte? Olha que eu conto, hein ... Mas acho que, a esta altura, vc já tá até sabendo ...
Beijos!
Si

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